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Porque a direita conservadora do Congresso não defende a família contra as Bets ?

  • Foto do escritor: Fernando Mineiro
    Fernando Mineiro
  • há 6 dias
  • 3 min de leitura

Olha só que curioso. Durante décadas, o discurso da velha direita conservadora brasileira no Congresso Nacional foi construído sobre pilares como a defesa da família, dos bons costumes e da responsabilidade individual. No entanto, quando o assunto são as apostas esportivas on-line — as famigeradas Bets —, parte expressiva desse mesmo grupo adota uma postura mais permissiva. E vamos combinar que nada disso é por acaso, né ?


As plataformas de apostas deixaram de ser apenas um entretenimento digital e se transformaram num grave problema social. Histórias de endividamento, perda de patrimônio, destruição de relacionamentos, adoecimento mental e dependência química comportamental se multiplicam em todo o país. Há casos de suicídios relacionados com essa epidemia. Pais de família deixam de pagar contas básicas para apostar, jovens comprometem salários inteiros na esperança de um ganho improvável e famílias inteiras convivem com o drama silencioso do vício em jogos, estimulado por publicidade agressiva e por uma falsa sensação de enriquecimento fácil.


A Copa do Mundo vem funcionando como uma espécie de lente de aumento nessa loucura, com transmissões indo além da propaganda normal para orientar o espectador sobre as apostas que deve fazer. Órgãos de controle de defesa do consumidor chegaram a intervir no modelo da CazéTV, que recuou e mudou, em parte, sua forma de chegar ao público.


Nesse contexto, seria natural esperar do Parlamento uma resposta firme, com regras mais rígidas para a publicidade, mecanismos eficazes de proteção aos jogadores e fiscalização rigorosa sobre um setor que movimenta bilhões de reais. Mas não é exatamente isso que acontece.


Uma recente reportagem da Agência Pública revelou, de forma nominal, parlamentares que atuam na defesa dos interesses das empresas de apostas dentro do Congresso Nacional. O levantamento mostra que diversos integrantes da chamada bancada conservadora receberam apoio financeiro ou mantêm relações políticas com empresários ligados ao setor. Não surpreende, portanto, que propostas de endurecimento da legislação encontrem resistência justamente entre aqueles que costumam se apresentar como defensores da moralidade pública.


A contradição é evidente. Afinal, qual valor familiar está sendo protegido quando um mercado altamente lucrativo lucra justamente com a fragilidade emocional e financeira de milhões de brasileiros? Que conceito de responsabilidade existe quando campanhas publicitárias, muitas delas protagonizadas por atletas e influenciadores, estimulam pessoas vulneráveis a acreditar que apostar é um caminho para melhorar de vida?


É importante reconhecer que a atividade econômica, por si só, não é ilegal. O governo Lula baniu as casas de apostas irregulares e regulamentou a atividade que havia sido estimulada sem qualquer regra e critério pelo governo Bolsonaro.


O problema está na ausência de limites compatíveis com os danos que ela produz. Assim como ocorreu com o cigarro e com bebidas alcoólicas, a liberdade econômica não pode servir de justificativa para ignorar impactos sociais conhecidos. Quando famílias são destruídas e vidas são comprometidas, a omissão do Estado deixa de ser neutralidade para se tornar cumplicidade.


O Congresso tem o dever de representar a sociedade, e não interesses privados financiados por grupos econômicos poderosos. A transparência sobre o financiamento político e os conflitos de interesse é condição mínima para que o debate público seja honesto. Enquanto parlamentares atuarem mais preocupados em preservar os lucros das Bets do que em proteger os brasileiros de seus efeitos, continuará existindo um enorme abismo entre o discurso de defesa da família e a prática política.


No fim das contas, a pergunta que permanece é óbvia: quem realmente está ganhando esse jogo? Certamente não são os apostadores, muito menos suas famílias. Os verdadeiros vencedores parecem ser as casas de apostas e aqueles que, dentro do Parlamento, trabalham para garantir que seus interesses continuem valendo mais do que o bem-estar da população.

Deputado Federal Fernando Mineiro

Sobre mim

Fernando Mineiro foi eleito deputado federal pelo Rio Grande do Norte (RN) em 2022, com 83.481 votos. Em sua trajetória política, cumpriu quatro mandatos como vereador na Câmara Municipal de Natal e outros quatro como deputado estadual na Assembleia Legislativa do RN.

 

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