17 de abril: uma reflexão sobre o Massacre de Eldorado dos Carajás e o golpe contra a democracia
- Fernando Mineiro

- 18 de abr.
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Há paralelos na história que não podem ser ignorados, sob pena de termos que pagar um alto custo no presente e também no futuro. O dia 17 de abril é um desses marcos simbólicos. Em 1996, o país assistiu ao Massacre de Eldorado dos Carajás, quando 19 trabalhadores rurais sem-terra foram assassinados e 69 ficaram feridos em uma ação desumana da Polícia Militar que expôs, de forma brutal, a desigualdade no campo e o uso da força para silenciar reivindicações sociais.
Com o agravante da impunidade: ainda hoje, 30 anos depois, há dois corpos de trabalhadores desaparecidos e dois dos assassinos seguem foragidos.
Vinte anos depois do massacre que chocou o país, em 2016, o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff foi autorizado na Câmara dos Deputados, sob a chefia de Eduardo Cunha, abrindo o processo que representou uma ruptura institucional travestida de legalidade. As cenas daquele teatro do absurdo, com deputados golpistas justificando o voto em defesa das próprias famílias e até de torturadores, seguem na memória da população.
Um escárnio completo que desembocou, naquele mesmo ano, na nomeação de um governo ilegítimo e, dois anos mais tarde, na eleição de um presidente abertamente favorável à ditadura e que tentou permanecer no poder através de um golpe de Estado, menosprezando o direito de escolha da maioria absoluta do povo brasileiro.
Não quero aqui equiparar eventos distintos na forma, mas reconhecer o que há de comum em sua essência: a permanência de práticas que fragilizam a democracia e naturalizam a violência — física ou institucional — contra direitos. São duas faces de uma mesma lógica histórica, marcada pela concentração de terra, de poder e pela exclusão sistemática de parcelas da população das decisões que moldam o país.
Quando trabalhadores são assassinados por lutar por acesso à terra e por defender uma reforma agrária justa e de direito, não estamos diante de um episódio isolado, mas de um sintoma de estruturas profundamente desiguais.
Quando processos políticos são conduzidos à revelia de um amplo consenso democrático, sob forte polarização e questionamentos sobre sua legitimidade, também se acende um alerta. Em ambos os casos, o que está em jogo é a capacidade da democracia de garantir direitos e mediar conflitos sem recorrer à eliminação, simbólica ou literal, de adversários políticos.
A concentração fundiária no Brasil nunca foi apenas uma questão econômica; ela é, sobretudo, política, pois define quem tem voz, quem decide e quem é silenciado. Da mesma forma, a concentração de poder nas instituições, quando não acompanhada de responsabilidade democrática, pode abrir espaço para arbitrariedades que corroem a confiança pública.
É nesse cenário que a eleição de 2026 ganha um significado que ultrapassa a alternância de governos. Estamos diante de uma encruzilhada sobre o compromisso do país com a democracia. Votar não é apenas escolher propostas administrativas, mas posicionar-se diante de valores fundamentais: respeito às regras do jogo, defesa dos direitos sociais e recusa a práticas autoritárias.
E nessa encruzilhada, o projeto popular liderado pelo presidente Lula é o único caminho que garante o equilíbrio democrático do país, com o fortalecimento das instituições e os avanços sociais e econômicos já demonstrados nos governos anteriores do PT.
Candidatos e candidatas precisam ser avaliados não apenas pelo que prometem, mas pelo que representam em termos de trajetória e compromisso democrático. Como se posicionam diante de episódios de violência no campo? Como tratam as instituições? Reconhecem a legitimidade da divergência ou apostam na eliminação do adversário?
A democracia não se sustenta sozinha: exige vigilância, memória e escolhas conscientes. Lembrar datas como 17 de abril não é um exercício de passado, mas um alerta para o presente, e, sobretudo, para o futuro.
Em 2026, mais do que nunca, será preciso escolher representantes que não apenas falem em democracia, mas que estejam dispostos a defendê-la, inclusive quando isso contraria interesses imediatos.
É preciso olhar com seriedade para o Congresso Nacional e dar ao Parlamento a mesma importância quando refletimos sobre o voto para presidente da República. É na Câmara e no Senado, através dos nossos representantes eleitos, que damos sustentação ao Estado democrático de direito através da elaboração de leis, fiscalização de recursos públicos e aberturas de investigações.
Porque, quando a violência, seja ela física ou institucional, se torna ferramenta política, o que está em risco não é apenas um grupo ou um governo, mas a própria ideia de convivência democrática. E isso, uma vez perdido, não se reconstrói facilmente.
Nesta eleição, estarei mais uma vez ao lado de deputados e senadores da bancada do PT, aguerridos companheiros que demonstram, diariamente, compromisso com a defesa dos valores democráticos. Juntos, vamos eleger Lula pela quarta vez, derrotando o autoritarismo e a extrema direita, para que episódios brutais, desumanos e violentos, como os ocorridos em Eldorado dos Carajás e no golpe contra Dilma Rousseff, fiquem apenas na memória, como exemplos do que nunca mais queremos reviver.



