A Copa do Mundo e a criminosa epidemia das Bets
- Fernando Mineiro

- há 5 dias
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Em meio à euforia da Copa do Mundo, uma atitude do lateral Danilo, um dos líderes da Seleção Brasileira, merece tanta atenção quanto qualquer resultado dentro de campo. Ao aderir à campanha #blocknotigrinho, o jogador se juntou a artistas e personalidades que vêm alertando sobre os perigos das apostas virtuais e dos jogos de azar que se espalham pelas redes sociais.
Já tratei desse tema aqui outras vezes, mas é importante voltar a ele. As Bets continuam se espalhando pelo país e a iniciativa de Danilo traz uma reflexão necessária: a Copa do Mundo nunca foi apenas futebol. E hoje poucos temas são tão urgentes quanto a epidemia das apostas virtuais no Brasil.
Com toda certeza, você já ouviu relatos de famílias endividadas, jovens mergulhados em vícios comportamentais e pessoas que comprometem renda, patrimônio e qualidade de vida na tentativa de recuperar perdas sucessivas. O que é apresentado como diversão muitas vezes se transforma em sofrimento financeiro, emocional e até familiar.
Esse cenário torna ainda mais lamentável que redes de TVs, concessões públicas, sejam usadas para um crime contra a economia popular.
Por isso, a manifestação de Danilo tem um significado que vai muito além do esporte. Em um ambiente cada vez mais cercado por patrocínios de casas de apostas, usar a própria visibilidade para alertar sobre os riscos desse mercado é um gesto de responsabilidade social.
Também é preciso lembrar que o crescimento desenfreado das apostas não aconteceu por acaso. Durante o governo Bolsonaro, houve uma proliferação desregrada das plataformas de Bets. Nos últimos anos, o governo Lula passou a adotar medidas para regulamentar o mercado e reduzir seus impactos sociais, estabelecendo regras mais rígidas para a operação das empresas e buscando restringir o acesso de públicos mais vulneráveis.
Entre essas medidas estão as restrições para que recursos de programas sociais não sejam utilizados em apostas. Beneficiários do Bolsa Família, por exemplo, não podem utilizar o benefício para essa finalidade. Da mesma forma, participantes de programas de renegociação de dívidas, como o Desenrola Brasil 2, também são proibidos de apostar.
Mas a responsabilidade não pode ficar apenas com o Executivo. É preciso cobrar de deputados e senadores uma posição clara. Não é segredo para ninguém que esse setor movimenta bilhões de reais e exerce forte influência sobre parcelas significativas do Congresso Nacional.
Vale lembrar um tema que eu também já tratei aqui: durante a tramitação de projetos voltados ao combate ao crime organizado, parlamentares do Centrão e da extrema direita atuaram para retirar mecanismos de financiamento que poderiam contar com recursos provenientes da tributação das Bets regularizadas.
Por tudo isso, a iniciativa de Danilo merece reconhecimento. Em um momento em que as apostas se tornaram parte da paisagem cotidiana e invadiram o esporte, as redes sociais e a publicidade, sua mensagem ajuda a recolocar o debate onde ele precisa estar: na proteção das pessoas. Afinal, nem todo jogo vale a pena ser jogado.



