A epidemia das bets exige mais do que advertências
- Fernando Mineiro

- há 12 minutos
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O debate sobre os prejuízos que as bets e outros tipos de apostas virtuais vêm provocando na vida de milhões de brasileiros já rompeu a barreira do futebol, mas segue em foco durante a Copa do Mundo. Algumas emissoras de TV e plataformas de streaming extrapolaram a já perversa divulgação desses jogos on-line.
Desde o início do Mundial, vem chamando a atenção o modelo de negócio da CazéTV, que não apenas anuncia as bets, mas também estimula e sugere os tipos de apostas que o espectador pode fazer para obter ganhos.
A agressividade da CazéTV ao incentivar esses jogos provocou uma enxurrada de críticas do próprio público que acompanha o canal, formado sobretudo por jovens, e motivou ações de órgãos de fiscalização.
A Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), vinculada ao Ministério da Justiça, abriu uma investigação contra a CazéTV por publicidade irregular durante as transmissões da Copa. Na sexta-feira, o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) também concedeu uma liminar contra o que classificou como "propaganda abusiva" das casas de apostas exibidas pelo canal.
As duas intervenções levaram a mudanças na forma como a CazéTV divulga as apostas, mas isso ainda é muito pouco diante da dimensão dos prejuízos que esses jogos vêm provocando na sociedade.
Famílias estão sendo destruídas pelo endividamento inconsequente, cujos efeitos já conhecidos incluem adoecimento mental e até mortes. Há casos de pessoas superendividadas que recorreram ao suicídio diante das dificuldades financeiras provocadas pelas apostas.
Na contramão desse cenário, já existe um movimento formado por artistas e atletas que se opõe a essa realidade. O craque francês Kylian Mbappé é uma das vozes mais conhecidas que, há tempos, critica a proliferação das bets. No Brasil, há duas semanas, o lateral-direito do Flamengo e da Seleção Brasileira, Danilo, aderiu ao movimento #BlockNoTigrinho, criado por artistas brasileiros e que repercutiu entre representantes da cultura do Rio Grande do Norte.
Neste sábado, a cantora Marisa Monte exigiu, durante um show no Rio de Janeiro, que o logotipo de uma das bets patrocinadoras da casa de espetáculos fosse coberto, mais uma manifestação contundente contra a divulgação desenfreada dessas apostas.
Esse é um debate urgente no Brasil. O governo Lula regulamentou o setor, fechou casas ilegais e passou a permitir a operação apenas de empresas autorizadas. Ainda assim, o próprio presidente tem afirmado, em entrevistas, que, se dependesse exclusivamente de sua decisão pessoal, acabaria com qualquer tipo de aposta virtual, em razão dos malefícios causados à vida das famílias brasileiras.
Não podemos adiar essa discussão. Essa é uma pauta que exige a união dos Poderes e de toda a sociedade. É preciso ampliar as campanhas de conscientização sobre os riscos das apostas, fortalecer a fiscalização e pressionar o Congresso Nacional para aprovar regras mais rigorosas, capazes de reduzir o adoecimento, o superendividamento e a perda de vidas.
No fim das contas, quem realmente ganha com as apostas não é quem joga, mas quem vende a ilusão de que existe dinheiro fácil.



